Traseiras da Mouraria

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Bairros de Mouros e Judeus

Os bairros arrabaldinos da Judiaria e da Mouraria correspondem a espaços contidos no interior dos muros onde, entre o século XIV e 1497, se instalaram as populações tidas como minorias.
O bairro da Judiaria encontrava-se adjacente às muralhas do “Aipram” (Alporão), enquanto que o da Mouraria se localizava exteriormente à primitiva cerca do planalto, sendo só após a construção da cerca femandina que veio a ser inserido no interior do recinto amuralhado.
A freguesia de S. Martinho, toponímia marcada pelo largo do mesmo nome, incluía a residência de mercadores do Aipram (palavra árabe que significa terreno elevado), zona artesanal de tendas e de intensa actividade comercial, integrando nas suas imediações o bairro da Judiaria, de acesso possível pela ainda hoje existente Travessa da Judiaria.
As ruas e becos de traçado irregular, construções reflectindo a cultura e a religião das populações então marginalizadas, privilegiavam o interior e estão agora geralmente ocupados por habitantes de parcas posses, num rico tecido urbano infelizmente marcado pelo abandono e pela falta de reabilitação construtiva e social.
Não obstante, trata-se de um património cultural que é digno de visita, valorizando-se fachadas, cantarias, telhados de “tesouro” ou “tesoura”, a toponímia sugestiva de antigas actividades e utilizações: localizadas na actual freguesia do Salvador, a Travessa da Mouraria, o Beco dos Agulheiros ou a Travessa dos Surradores, onde se destaca a residência (n°. 9) conhecida como Casa dos Mascarões, em cujo primeiro piso estão representadas caras de animais fantásticos, em jeito de mísulas. Os muros caiados de branco deixam adivinhar a primazia concedida aos pátios interiores, lembrança urbana da antiga ocupação árabe, reforçada ainda pela presença de algumas pequenas hortas e pomares.
Da Mouraria, diz Angela Beirante: “À retaguarda da Câmara, ficava a chamada travessa por Detrás dos Açougues (correspondente à Rua 15 de Março), ladeada de pardieiros e lagares. Entre os proprietários de lagares contava-se o Convento de Alcobaça e um rico mercador (…). Marvila tinha aí alguns pardieiros e nessa travessa vivia um tabelião, um latoeiro e um ourives.
Aporta de Atamarma integrava um complexo de artérias e a sua comunicação com a Praça fazia-se pelo menos por duas ruas (…) A rua das Tendeiras que saía da Praça do Pelourinho é identificada (…) com a rua das Frigideiras, nome que ainda se mantém.

O Caminho de Salinas

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“Quantas das vezes, chegado o fim-de-semana, pegávamos no nosso material de pesca, metíamos um lanchito numa sacola e faziamo-nos ao caminho.

Rumávamos direito às Portas de Sol e cruzávamos a porta de Santiago, na altura para nós, o Buraco das Salinas. Descíamos pelo íngreme caminho e, em breve, estávamos na Ribeira de Santarém.
Depois, junto aos pilares da ponte, pescávamos bogas, bordalos, barbos, e até uma ou outra carpa, ou híbrido, como então chamávamos aos pimpões e outros peixes parecidos. Ou, então, não apanhávamos nada.
Eramos, então, homens com corpo e mente de adolescentes. Homens, porque desde cedo trabalhavámos; adolescentes, porque essa era a nossa idade.
A subida era bem pior. Não só por ser subida, mas pelo cansaço do dia.
Mais tarde soube que a vida não é mais que o caminho do Buraco das Salinas, nas Portas de Sol. Tudo nos parece sorrir, quando descemos a montanha, nascidos para a vida. Porém, mais difícil se torna o caminho que nos leva de regresso.”